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O paradoxo do pertencimento: o que a Copa do Mundo revela sobre a experiência coletiva

A imagem atual não possui texto alternativo. O nome do arquivo é: vinicius-amnx-amano-aanirjifrke-unsplash

Existem poucos momentos em que o Brasil parece compartilhar a mesma conversa.

Em um país marcado por diferentes realidades, interesses e visões de mundo, são raras as ocasiões em que milhões de pessoas voltam sua atenção para um mesmo acontecimento ao mesmo tempo. A Copa do Mundo é uma delas. Durante algumas semanas, a rotina muda de ritmo, o expediente termina mais cedo, os grupos de família ficam mais movimentados, os encontros ganham um motivo extra para acontecer e até quem não acompanha futebol ao longo do ano encontra alguma forma de participar da conversa.

A importância histórica do futebol na cultura brasileira certamente ajuda a explicar parte dessa mobilização. Ainda assim, ela não parece suficiente para compreender a dimensão que a Copa assume a cada edição. O torneio produz movimentos que extrapolam o esporte e alcançam diferentes esferas da vida social. O comércio fecha, as ruas mudam de cor, os horários são reorganizados e conversas passam a circular entre pessoas que talvez não compartilhassem qualquer outro assunto em comum. O que se forma ali vai além do interesse por uma competição, trata-se de um acontecimento coletivo que passa a organizar, ainda que temporariamente, parte da vida cotidiana.

Essa dinâmica ganha contornos particulares por acontecer em um país marcado por contrastes, disputas e experiências muito distintas entre si. Embora as diferenças não desapareçam e nem deixem de produzir tensões durante a Copa, por algumas semanas surge um espaço comum, capaz de transitar e unir grupos e territórios. Entre jogos, encontros, memes, comemorações e conversas, forma-se um repertório compartilhado que passa a fazer parte da memória daquele momento. 

A Copa não elimina as diferenças

Diante de uma mobilização dessa escala, é comum que a Copa seja interpretada como um momento de união nacional. A ideia aparece com frequência nas coberturas jornalísticas, nas campanhas publicitárias, nas redes sociais e nas conversas que se formam ao longo do torneio.

Mas essa leitura parte da premissa de que a força da Copa estaria na capacidade de aproximar pessoas que normalmente estariam separadas por divergências, interesses ou visões de mundo.

As disputas políticas continuam existindo, as desigualdades sociais permanecem presentes, as diferentes maneiras de interpretar a realidade não entram em pausa durante os jogos. Ainda assim, milhões de pessoas encontram motivos para acompanhar o mesmo evento, comentar os mesmos acontecimentos e incorporar aquele contexto às suas rotinas.

A dinâmica da Copa desloca a discussão da ideia de consenso para a ideia de participação. Pode parecer que o campeonato coloque em evidência uma suposta ideia de concordância generalizada, mas, num nível mais profundo, há a existência de um acontecimento capaz de reunir pessoas em torno de referências comuns sem exigir que elas pensem da mesma forma.

A relevância da Copa vai além do esporte porque oferece uma oportunidade rara de observar como acontecimentos coletivos ganham força mesmo em contextos marcados por diferenças, disputas e interesses diversos. 

As pessoas querem participar, não apenas assistir

A pesquisa A Copa Dentro da Gente, desenvolvida pela Omnicom Media Group Brasil, ajuda a ampliar essa discussão. Ao investigar as motivações que continuam mobilizando os brasileiros em torno da Copa do Mundo, o estudo aponta que o torneio funciona como um importante espaço de encontro social. Assistir aos jogos com familiares, reunir amigos, compartilhar expectativas e acompanhar as partidas em grupo aparecem como elementos centrais dessa experiência.

O estudo também sugere que a força da Copa está relacionada a algo que vai além do interesse pelo futebol. O evento cria oportunidades de participação que se manifestam nas conversas, nos encontros e nos rituais que se formam ao redor dos jogos. Nesse contexto, a partida deixa de ser o único elemento relevante e passa a integrar uma dinâmica social mais ampla de pertencimento. 

Essa lógica também aparece em elementos que antecedem a competição. A pesquisa destaca o papel do álbum de figurinhas como um dos símbolos desse processo. O álbum  ajuda a marcar o início da Copa para muitas pessoas, criando espaços de troca, interação e construção de memórias antes mesmo da bola rolar.

Outro aspecto observado pela Omnicom é o desejo de participar da conversa pública que se forma durante o campeonato. Entender os memes, comentar resultados, compartilhar opiniões e acompanhar os acontecimentos do torneio são práticas que permitem às pessoas integrar um repertório que circula entre diferentes grupos sociais. Em muitos casos, o interesse não está apenas na partida em si, mas na possibilidade de não ficar de fora de um acontecimento que mobiliza milhões de pessoas ao mesmo tempo. 

Uma conclusão semelhante aparece em um artigo publicado pela revista TIME, que reúne pesquisas sobre esporte e bem-estar. O texto aponta que uma parte importante da satisfação associada ao ato de torcer está relacionada à conexão social produzida por essas experiências. O pertencimento a um grupo, os rituais compartilhados e a sensação de participar de algo maior do que a rotina individual aparecem como fatores diretamente associados ao bem-estar. 

O que isso tem a ver com comunicação?

Existe uma tendência de associar comunicação à produção e circulação de mensagens. Embora essa dimensão seja importante, a experiência da Copa mostra que nem tudo o que acontece na vida coletiva pode ser explicado apenas pelo que é dito ou transmitido. 

A mobilização em torno do torneio não nasce de uma única narrativa, de uma campanha específica ou de um discurso centralizado. Ela é resultado da combinação de símbolos, hábitos, memórias, conversas e práticas sociais que se acumulam ao longo do tempo e ganham novos significados a cada edição.

Nesse sentido, a Copa ajuda a lembrar que a comunicação não acontece apenas quando alguém fala e outro escuta. Ela também acontece nos rituais que aproximam pessoas, nos códigos compartilhados que permitem reconhecimento mútuo e nos contextos que tornam determinadas experiências socialmente relevantes.

Esse movimento ocorre sem que exista uma interpretação única sobre o que está acontecendo. Cada pessoa vivencia a Copa a partir da própria trajetória, dos próprios interesses e das próprias referências. Ainda assim, algumas ideias, símbolos e histórias acabam sendo compartilhados por muita gente, ganhando destaque e passando a fazer parte da experiência coletiva daquele período. 

Observar a Copa como fenômeno de comunicação não significa analisar apenas o que é dito sobre ela, mas compreender como certos acontecimentos conseguem se tornar pontos de referência comuns, atravessando diferentes contextos e experiências.

Nesse sentido, a Copa evidencia que a comunicação não se limita à circulação de mensagens. Ela também se manifesta na forma como determinados eventos estruturam interações, organizam conversas e criam sentidos compartilhados que passam a integrar a vida social. Afinal, como argumenta Sodré (2014), comunicar é produzir vínculos, constituindo formas de estar em comum que ultrapassam a mera transmissão de informações.

O que fica quando o jogo termina?

A Copa costuma ser lembrada pelos resultados, pelas eliminações e pelas imagens que atravessam gerações. Mas sua permanência na cultura brasileira está nas marcas deixadas ao redor do campo, não apenas no que aconteceu dentro dele.

As histórias contadas depois dos jogos, as tradições familiares, os encontros que se repetem a cada edição e as lembranças associadas a determinados momentos ajudam a explicar por que a competição continua ocupando um lugar singular no imaginário coletivo.

Para a comunicação, essa percepção exige uma mudança de postura: menos foco em capturar atenção imediata e mais intenção em construir significados que permaneçam. Isso implica pensar além do momento de exposição e considerar como uma mensagem pode se desdobrar em memória, conversa e repertório ao longo do tempo. Nem sempre o impacto está no pico de visibilidade, mas na capacidade de continuar presente na forma como as pessoas lembram, compartilham e atribuem sentido às suas experiências.

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